e se fossem havaianas, As

sandálias de Moisés?

Em "Mistérios da Escrita" eu faço uma abordagem bem sucinta sobre a linguagem, como um sistema de signos - e volto a dizer que signo, aqui, é tudo aquilo que tem significado para alguém, não se trata dos signos do zodíaco, ok? Eu acredito que você tenha percebido, naquele artigo, que atrás de todo signo tem um valor mensurável e inerente, e esse valor está intimamente ligado a um sistema de crenças. Em outras palavras: nós valorizamos tudo aquilo que chega até nos por transmissão cultural, pela sociedade em que vivemos, pois nelas somos formados.

Tenho a certeza que sua mente, neste exato momento, você está procurando um significativo paralelo que torne compreensiva minha afirmativa. Vou exemplificar: suponhamos que você tenha nascido numa das cidades da região sul do país onde o chimarrão seja a bebida obrigatória em todas as famílias daquela sociedade. Você cresce observando os adultos consumirem tal bebida e divulgarem seus benefícios. Até que certo dia seu pai recebe em sua casa um novo amigo recém chegado na cidade, mas que é nascido e criado no Nordeste. Pergunta valendo 10 pontos: para o novo amigo de seu pai o chimarrão terá o mesmo valor que tem para vocês?  O ritual do chimarrão, que, nesse exemplo, é parte da sua cultura, será valorizado da mesma forma pelo amigo nordestino de seu pai? Ah, mas se você oferecer a ele um delicioso cuscuz feito de milho...

Nesse contexto a cultura, seja ela alimentar, religiosa ou outra qualquer, será a sua referência de valor de maneira que algumas práticas para você não façam sentido algum enquanto outras já façam todo o sentido do mundo; e isso está intimamente ligado a sua estrutura de pensamentos, na qual o sistema de crenças atua e por isso quando lemos alguns relatos históricos ficamos a refletir sobre seus significados e seus porquês. E uma maneira de conhecermos e  avaliarmos a cultura de povos passados é através da arqueologia.

Podemos lançar mão da arqueologia para tentar explicar algumas passagens históricas que, de certa forma, nada nos dizem além daquilo que elas querem dizer; ou seja: não tem nenhum valor para nós! E como curiosidade histórica e religiosa eu quero fazer uma pergunta para você em torno de um episódio relatado no capítulo 3 da parashá Bereshit dos judeus ou Gênesis para os cristãos: por que Moisés não poderia se achegar para perto da sarça que ardia no deserto sem antes tirar as sandálias dos pés? Eu sei que você, muito provavelmente, vai me dizer: "ah essa é fácil: ele tirou porque a terra em que ele estava pisando era terra santa!" Sim, eu sei que é isso que está escrito, mas eu quero insistir em um ponto: que relação há entre lugar santo e a necessidade de se estar descalço? Existe alguma doutrina bíblica que estabeleça essa relação, essa regra? Existe algum lugar, em algum dos 66 livros da bíblia (ou 73 se você for católico) alguma passagem que diga ou estabeleça que "antes de entrar na igreja ou em local sagrado você deve tirar os sapatos (ou as sandálias) dos pés?

Imagem 1: tumba egípcia de Beni Hassan

Vamos falar um pouco sobre Moisés: conforme relato bíblico, Moisés nasceu em uma época em que os hebreus foram considerados mais poderosos do que os egípcios, fato que levou o novo rei do Egito a temê-los. Na tentativa de diminuir sua população, deu ordem as parteiras hebreias que matassem todo recém nascido do sexo masculino, deixando as do sexo feminino viver. As parteiras, porém, "temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egito lhes dissera, antes, conservaram os meninos com vida". (1)  Vendo o Faraó que as parteiras não fizeram o que lhe ordenara, determinou a seu povo que jogasse no Rio Nilo todo recém nascido hebreu do sexo masculino.

Moisés nasceu (até então sem nome de batismo) e sua mãe conseguiu escondê-lo por 3 meses. Vendo a mãe de Moisés que não seria mais possível ocultá-lo dos egípcios, "tomou uma arca de juncos, e a revestiu com barro e betume; e, pondo nela o menino, a pôs nos juncos à margem do rio. E sua irmã ficou de longe, observando, para saber o que ia acontecer. Foi quando a filha de Faraó desceu a lavar-se no rio, e viu a arca no meio dos juncos. Abrindo-a, viu ao menino e eis que o menino chorava; e moveu-se de compaixão dele, e disse: este meninos é um dos filhos dos hebreus. Então disse a irmã do menino a filha de Faraó: posso chamar uma ama das hebréias para criar este menino para ti, a qual disse a filha de Faraó: Vai. A garota então chamou a mãe do menino que recebeu ordem da filha de Faraó para criá-lo por um salário. Quando o menino já era grande, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou; e chamou-lhe Moisés, e disse: Porque das águas o tenho tirado".(2)

É importante termos a percepção de que Moisés fora educado entre os egípcios, aprendendo sua cultura, lendo e estudando entre eles. E isso parece óbvio: Moisés absorveu o mesmo sistema de crenças dos egípcios, ele cresceu debaixo dos costumas e da cultura egípcia e quando fugiu do Egito para o deserto ele contava com aproximadamente 40 anos anos de idade. Já era um homem feito. Sua jornada no deserto serviu para que ele convivesse com o povo hebreu e conhecesse dos seus costumes e como eles se relacionavam com o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Mesmo assim ele ainda tinha uma bagagem cultural muito forte em sua mente do período em que viveu como egípcio e por isso foi necessário que Deus se comunicasse com ele de uma forma que ele entendesse, usando uma linguagem que lhe fosse familiar.

Nos achados arqueológicos da tumba de Beni Hassan, os especialistas fizeram a leitura e tradução dos desenhos e escritos e notou-se em uma das paredes o desenho um homem, que supostamente era o dono da tumba, sendo acompanhado de forma mais próxima por um de seus servos. Eles estavam descalços e iam em direção a divindade egípcia para adorá-la. Nota-se também, nessa mesma parede, a imagem de outros servos mais distantes segurando as sandálias de seu senhor e do auxiliar imediato fazendo clara referência a como se conduzir diante de uma divindade egípcia.

Imagens 2, 3 e 4: adoração. Clique na imagem para ampliá-la.

Para o arqueólogo brasileiro Rodrigo Silva, a referência de Moisés quanto a autoridade de uma divindade estava no ritual de sua adoração e, segundo a arqueologia egípcia demonstra, para se aproximar e comparecer diante de uma divindade era necessário que o adorador o fizesse de pés descalços. Assim, faz todo sentido Deus ordenar que Moisés não se aproximasse dEle ou permanecesse naquele terreno vestindo suas sandálias, pois aquele lugar era lugar sagrado, lugar de uma divindade. Isso disparou imediatamente um gatilho mental em Moisés que logo entendeu que ele estava diante de uma autoridade espiritual, um Deus - que nesse caso era o Deus que criou todas as coisas.

E então, gostou? Agora faz sentido para você Deus ter determinado que Moisés tirasse as sandálias dos pés? No nosso próximo encontro falaremos como Deus transformou Moisés em um deus maior que os deuses do Egito.

(1) Gênesis, capítulo 1, versículo 17.
(2) Gênesis, capítulo 2, do versículo 3 ao 10.
Nota: artigo do arqueólogo Rodrigo Silva, reeditado e transcrito, cujas informações fontes estão disponíveis em seu canal no YouTube.

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